Ações terapêuticas.
Anestésico local. Antiarrítmico.
Propriedades.
Seu mecanismo de ação como anestésico
local consiste no bloqueio tanto da iniciação como da condução dos impulsos
nervosos, mediante a diminuição da permeabilidade da membrana neuronal aos íons
de sódio, estabilizando-a de forma reversível. Esta ação inibe a fase de
despolarização da membrana neuronal, o que dá lugar a um potencial de
propagação insuficiente e, consequentemente, ao bloqueio da condução. Exerce
sua ação como antiarrítmico diminuindo a despolarização, o automatismo e a
excitabilidade nos ventrículos durante a fase diastólica mediante uma ação
direta sobre os tecidos, especialmente a rede de Purkinje, sem envolver o
sistema autônomo. A lidocaína é absorvida com rapidez através das membranas
mucosas até a circulação geral, com dependência da vascularização e velocidade
do fluxo sanguíneo no local da aplicação e da dose total administrada. Sua
absorção através da pele intacta é escassa, aumentando quando aplicada sobre
pele traumatizada ou desgastada.A absorção sistêmica é praticamente completa e a
velocidade de absorção depende do local e via de administração, da dose total
administrada e da utilização ou não de vasoconstritores de forma simultânea. Os
vasoconstritores diminuem o fluxo sanguíneo no sítio da injeção, o que reduz a
velocidade de absorção local do anestésico, com o que se prolonga o tempo de
ação; diminui-se sua concentração sérica máxima, diminui o risco de toxicidade
sistêmica e, com baixas concentrações, aumenta a frequência dos bloqueios
totais de condução. O metabolismo é principalmente hepático (90%); seus
metabólitos são ativos e tóxicos, porém menos que a droga inalterada, e 10% são
excretados sem modificação pelo rim.
Indicações.
Anestesia local tópica em membranas
mucosas acessíveis (endoscopia ou exploração de esôfago, laringe, boca,
cavidade nasal, faringe, reto, traqueia e trato urinário), alívio sintomático
de distúrbios anorretais (hemorróidas, dor anorretal), tratamento de distúrbios
da cavidade oral (dor por irritação, inflamação em lesões de boca e gengiva,
dor por prótese dental), tratamento da dor faríngea, alívio e controle da dor
na uretrite, tratamento da dor, prurido e inflamação das doenças menores de
pele. Por via parenteral, é indicada para produzir anestesia local ou regional,
analgesia e bloqueio neuromuscular em grau variável antes das intervenções
cirúrgicas dentais e parto obstétrico; por via intravenosa ou intramuscular
(ação sistêmica), é o fármaco escolhido para o tratamento de urgência das
arritmias ventriculares.
Posologia.
Lidocaína tópica, geleia a 2%: 5 ml
por aplicação até 3 vezes ao dia; urologia: 25 ml em homens e 15 ml em
mulheres. Lidocaína tópica, pomada a 5%: varia conforme o uso e a área a
anestesiar. Lidocaína tópica, solução a 4%: depende da área a anestesiar.
Lidocaína tópica, aerossol a 10%: não ultrapassar os 30 mg por quadrante de
mucosa gengival ou oral (cada atomização libera 10 mg da droga). Lidocaína
tópica, viscosa a 2%: por contato, pode ser aplicada com pincel ou com a ponta
dos dedos várias vezes ao dia; por ingestão: 5 ml 3 vezes ao dia.Lidocaína
injetável, dose usual para adultos: a) anestesia caudal: analgesia obstétrica,
200 a 300 mg em solução a 1%; analgesia cirúrgica, 200 a 300 mg em solução a
2%; b) anestesia epidural: analgesia lombar, 250 a 300 mg em solução a 1%; anestesia
lombar, 200 a 300 mg em solução a 2%; c) infiltração: regional intravenosa; 50
a 300 mg em solução a 0,5%; percutânea, 5 a 300 mg em solução a 0,5 ou 1%; d)
bloqueio nervoso periférico: brônquico, 200 a 300 mg em solução a 2%; dental,
20 a 100 mg em solução a 2%; intercostal, 30 mg em solução a 1%; paracervical e
genital, 100 mg em solução a 1% em cada sítio; paravertebral, 30 a 50 mg de
solução a 1%. Para sua utilização como antiarrítmico, é preferível sua
administração intravenosa em infusão contínua: a dose usual para adultos é de
20 mg a 50 mg/kg a um ritmo de 1 a 4 mg/minuto, após uma dose de ataque de 1
mg/kg a um ritmo aproximado de 25 a 50 mg/minuto; a dose usual em crianças é de
30 mg/kg a um ritmo de 1 a 4 mg por minuto após uma dose de ataque de 2 mg/kg a
um ritmo de 25 a 50 mg por minuto.
Reações adversas.
Administração tópica: erupção cutânea,
urticária ou angioedema por reação alérgica. Administração parenteral como
anestésico local: erupção cutânea, urticária ou angiodema por reação alérgica;
como anestésico dental: adormecimento prolongado de lábios e boca; como
anestésico raquídeo: cefaleias, náuseas, vômitos e torcicolos. Administração
parenteral como antiarrítmico: erupção cutânea e angioedema por reação
alérgica, dor no ponto da injeção, ansiedade, enjoos, sonolência.
Precauções.
Quando utilizada por via tópica, deve
ser administrada com cuidado na presença de hemorróidas sangrentas, infecção
local na zona de tratamento (diminuição ou perda do efeito anestésico local) e
trauma grave da mucosa (aumenta sua absorção). A administração de lidocaína
epidural, subaracnóidea, paracervical ou genital durante o parto pode produzir
alterações na contratilidade uterina ou nos esforços de expulsão da mãe e
contrações das artérias uterinas. Quando empregada por via parenteral como
anestésico local, deve-se ter precaução na presença de disfunção cardiovascular
e hepática. A utilização como antiarrítmico deve ser cuidadosa em pacientes com
insuficiência cardíaca congestiva, hipovolemia ou choque, bloqueio cardíaco
incompleto, bradicardia sinusal e síndrome de Wolff-Parkinson-White, dado que
pode agravar todas estas patologias. Geralmente não existe sensibilidade
cruzada com outros anestésicos locais do tipo amida.
Interações.
O uso simultâneo com bloqueadores
beta-adrenérgicos pode tornar mais lento o metabolismo da lidocaína pela
diminuição do fluxo sanguíneo hepático. A cimetidina pode inibir seu
metabolismo hepático. Os medicamentos depressores do sistema nervoso central
podem aumentar os efeitos depressores da lidocaína. A utilização simultânea com
bloqueadores neuromusculares pode potencializar ou prolongar a ação destes. A
administração conjunta com vasoconstritores para anestesiar zonas irrigadas por
artérias terminais (como dedos das mãos, dos pés ou pênis) deve ser muito
cuidadosa, uma vez que pode produzir isquemia e gangrena. Quando utilizada como
antiarrítmico, o uso simultâneo com outros antiarrítmicos pode gerar efeitos
cardíacos aditivos.
Contraindicações.
Para qualquer via de administração:
hipersensibilidade à droga. Para administração parenteral: bloqueio cardíaco
completo, Síndrome de Adams-Stokes, hipotensão grave, infecção local no lugar
onde se realizará a punção lombar, septicemia.